Alunos da Universidade Rural enfrentam dificuldades para chegar até o Campus
Thaís de Oliveira Chaves, Catarina Villar, José Adriano e Rômulo dos Santos
As dificuldades de acesso à universidade não estão só no momento do vestibular. Os alunos da Rural enfrentam problemas diários nos trajetos de ida e volta até o campus Seropédica a exemplo dos grandes intervalos de horário entre os ônibus, quantidade insuficiente de veículos por frota e grandes engarrafamentos que fizeram a fama do km 32 da BR 465, no município de Nova Iguaçu.
Trajeto de Larissa
Essa rotina vivida nos transportes públicos acaba por se tornar exaustiva e os universitários acabam tendo que fazer sacrifícios. Larissa Guedes, aluna do curso de Jornalismo,conta como são os seus percursos cotidianos. A aluna mora em Seropédica, no km 49, mas estuda também no centro do Rio, Avenida Presidente Vargas. Ela passa aproximadamente seis horas do seu dia dentro das conduções onde gasta por volta de 18 reais por dia.
Ao explicar seu trajeto, Larissa também se queixou do intervalo entre os ônibus, a condição dos veículos, superlotação, péssimas estradas e ainda os inúmeros engarrafamentos tanto na Avenida Brasil como também na altura do km 32.
Ouça abaixo o relato de Larissa Guedes
Ela ainda conta que abre mão de refeições durante todo o dia para que não corra o risco de perder algum ônibus, já que os intervalos são muito grandes e se acontecer de perder um, atrasaria todo o resto do dia.
“Eu acordava 5h […] levantava correndo, já enfiava uma roupa que já deixava separada no dia anterior à noite. Arrumava um lanche, qualquer coisa e colocava dentro da bolsa para poder tomar meu café dentro do ônibus.”, relatou a universitária.
A sede da Rural têm aproximadamente 21 mil estudantes e está localizado em Seropédica, na Baixada Fluminense. Para chegar na Instituição, as opções de transporte público se limitam a três empresas de ônibus (Real Rio, Ponte Coberta e Cidade do Aço) que operam as linhas para o Rio de Janeiro, Itaguaí, Nilópolis e Paracambi. Dezenas de estudantes precisam utilizar pelo menos dois modais para estudar.
E para aqueles que estudam e trabalham? O tempo para aproveitar a família e descansar se torna raridade, como é o caso do estudante de jornalismo Lucas Ferreira, que mora no Flamengo, zona sul da capital Fluminense.
Trajeto de Lucas do Centro do Rio até a Rural
“As dificuldades que eu vejo [no trajeto] são o engarrafamento que tem no km 32 quase todos os dias e a questão do horário, porque duas horas de viagem é uma coisa meio complicada. Se for colocar na ponta do lápis, são quatro horas de viagem no mínimo. Isso com o trânsito bom”,afirma o universitário.
As viagens são cansativas, mas também são momentos para o jovem ler ou até mesmo colocar o papo em dia. Um controle diário para não ter o tempo como inimigo.
Ouça abaixo a continuação do relato de Lucas:
Lucas decidiu estudar jornalismo na Universidade Rural, porque ele trabalha com a mãe durante o dia e gasta aproximadamente R$ 20,00 com passagens de ida e volta, o valor pode chegar a R$ 480 por mês. Segundo ele, fica mais barato gastar com passagem do que pagar a mensalidade do curso em uma universidade privada.
Ouça abaixo a continuação do relato de Lucas:
“Eu fiz essa conta há um tempo com meus pais para ver como iria ficar. Pra ver se eu viria morar aqui [em Seropédica]. Por incrível que pareça, se eu morasse aqui teria mais custos do que eu fazendo esse tramite–“, disse.
Na rotina de trabalhar e viajar pelo menos quatro horas por dia para estudar, Lucas propõe melhorias na mobilidade urbana do Rio.
Felipe Barros tem 22 anos, é aluno de jornalismo na Universidade Rural e pega 8 conduções por dia. Ele gasta por volta de 6h em seus trajetos. De Marechal Hermes ele pega um ônibus até Madureira e de lá o BRT até a Barra Da Tijuca, onde faz estágio. Ao sair do estágio pega dois BRTs, fazendo baldeações, até chegar à estação do Mato Alto, em Campo Grande, em seguida uma van até o centro de Campo Grande e depois um ônibus até Seropédica. Nesse trajeto do estágio até a Universidade ele gasta aproximadamente 3:30h. Saindo da universidade mais dois ônibus até chegar em casa.
Ouça abaixo o relato de Felipe:
“Em torno de seis horas só nos deslocamentos, entre minha casa, o estágio, a faculdade e a minha casa novamente. Seis horas no transporte público. Eu pego, diariamente, muito trânsito principalmente no km 32 da antiga Estrada Rio – São Paulo, ali é um local onde fico parado bastante tempo”, esse é o relato de mais um estudante da UFRRJ que também perde seis horas do seu dia dentro de ônibus.
Tão, Tão Distante
O problema da falta de estrutura dos prédios e salas de aula, e transporte atinge a maioria dos estudantes da UFRRJ. A situação se agrava quando os estudantes com necessidades especiais e educativas têm poucos recursos que os incluam plenamente e deem acessibilidade ao local de estudos. Assim, a pouca infraestrutura coloca obstáculos à vida acadêmica desse grupo, fere os direitos de ir e vir, e, como consequência, impede o direito à Educação.
A mobilidade interna no Campus Seropédica para as pessoas com deficiências é pouco assistiva, e apresenta desafios como: degraus, calçamento irregular sem piso tátil, elevador fora de funcionamento, postes no meio da calçada, circulação restrita do ônibus interno (“o fantasminha” como é conhecido pelos alunos).
Esses problemas comprovam que é preciso assegurar que a legislação de Acessibilidade vigente seja cumprida, e o Coletivo de Pessoas com Necessidades Educacionais Específicas-Especiais da Universidade Rural (PNE-UFRRJ) está disposto a discutir junto à comunidade acadêmica as pautas sobre âmbito estrutural e inclusivo, bem como o mapeamento das demandas, dentro e fora da sala de aula.
O PNE-UFRRJ atua ainda como a representação estudantil nas reuniões do Núcleo de Acessibilidade e Inclusão (NAI-Rural). O NAI-UFRRJ funciona na sala 94 do Pavilhão Central (P1) da UFRRJ, em Seropédica e pode ser contactado pelo email: nairuralrj@gmail.com. O Núcleo compartilha os objetivos de garantir o direito das pessoas com deficiência-necessidades educacionais especiais ao ensino superior, e auxilia com recursos e materiais pedagógicos que promovam a acessibilidade e inclusão na UFRRJ, em uma visão institucional.
Pâmela do Nascimento, 28 anos, é aluna do curso de matemática, participa das atividades do PNE-UFRRJ e tem uma deficiência motora que a faz precisar do auxílio de uma muleta. A equipe de reportagem vivenciou as dificuldades enfrentadas pela estudante, a acompanhando no percurso para chegar à sala de aula checou as reivindicações acima já citadas na matéria, e o resultado foi a fotorreportagem abaixo:
Vale ressaltar que no fim de 2016, o Ministério da Educação regulamentou o direito a cotas para pessoas com deficiência nas universidades federais, e a UFRRJ, a partir do segundo semestre letivo começa a receber mais alunos com necessidades específicas através da inscrição no Sisu 2, porém ainda não apresenta suficiência no suporte, à tempo, para recebê-los como a lei prevê.
Itaguaí
A Câmara de Itaguaí aprovou a lei do transporte para universitários no dia 02 de maio deste ano, trazendo de volta os ônibus que realizavam o transporte universitário gratuito. O que garante o serviço aos estudantes é a lei de número 3.480, que institui o programa de transporte gratuito para estudantes universitários residentes no município.
Após a troca de governo nas últimas eleições, o serviço de ônibus havia sido suspenso, mas a falta de transporte teve repercussão negativa nas redes sociais, com manifestos cobrando uma posição concreta do Poder Legislativo quanto à oficialização da medida.
A lei afirma a obrigatoriedade do Poder Executivo de oferecer o transporte gratuito para os alunos, regularmente matriculados em instituições de ensino superior em municípios que fazem fronteira com Itaguaí.
Fica também a cargo do Poder Executivo a obrigação de disponibilizar, gratuitamente, ônibus e outros veículos próprios para transporte coletivo. Para a efetiva aplicação do benefício, o documento enfatiza ainda que no transporte dos alunos podem até ser utilizados os ônibus de transporte escolar da rede municipal de ensino.
De acordo com o texto, o município também poderá comprar ônibus ou outro veículo para atender os estudantes, assim como poderá terceirizar o serviço, por meio de contratação de empresa de transporte.
Seropédica
Segundo informações do site da Prefeitura de Seropédica, última atualização em 21 de agosto de 2015, a prefeitura oferecia o serviço de transporte universitário em conjunto com A Secretaria De Assistência Social E Direitos Humanos. Serviço esse que fazia o deslocamento de universitários matriculados em universidades de Campo Grande e Paracambi e alunos da universidade rural que morassem em algum desses outros municípios.
Mas quem participa da rotina universitária da Rural, hoje, sabe que esses ônibus não são vistos nem na universidade e nem no município. Tentamos entrar em contato com a Secretaria De Assistência Social E Direitos Humanos de Seropédica através dos telefones disponibilizados pelo site da prefeitura, pela própria prefeitura e por meio de pesquisas no Google, e não fomos atendidos em nenhum dos três telefones.
Ao falar diretamente com a Prefeitura, fomos transferidos para a Secretaria De Transportes E Serviços Públicos e de lá fomos transferidos para a Secretaria De Governo. A única pasta a se pronunciar foi a de transportes e a mesma informou que o serviço existia de fato e funcionava muito bem e que hoje não existe mais, mas não souberam informar porque parou de funcionar. Em questionamento o informado foi que apenas o prefeito poderia responder.
Paracambi
No dia 21 de fevereiro de 2017, a câmara municipal de Paracambi anunciou em sessão que o transporte universitário estaria de volta. O governo da última gestão interrompeu o serviço com a justificativa da queda na arrecadação devido à crise econômica. Sabendo que com as dificuldades impostas pela gestão anterior, um grupo de alunos recorreu aos vereadores de Paracambi, buscando uma intermediação com a prefeitura.
Ao entrar em contato com a Prefeitura eles não souberam informar a existências desses ônibus e em transferência para a Secretaria De Educação não havia ninguém responsável no local que pudesse se posicionar. Nem a funcionária do atendimento, nem a prefeitura, puderam confirmar a existência dos veículos.