Por Christian Fuentes
Imagine um programa que tenha como principal objetivo exercitar o controle do mal-estar provocado pelo estresse, pela carga horária de estudos, pelo estágio, pela pressão do dia a dia e pelos fatores psicossociais que afetam a saúde dos estudantes universitários. Já pensou encontrar um projeto como esse aqui na Universidade Rural, no campus de Seropédica? Então se você é um aluno (a) “ruralino”, se considere privilegiado com a “Cia da Dança”.
A Companhia da Dança da UFRRJ tem um trabalho consistente, com oferta de aulas de dança voltadas à comunidade acadêmica da Rural e à comunidade de Seropédica. Com relação ao corpo discente da universidade, além de ser uma alternativa aos horários vagos – e quase escassos – dos alunos, tem como principal objetivo cuidar da saúde e da vida social dos universitários e demais participantes. Trata-se de um projeto criado e desenvolvido pelo Departamento de Educação Física da UFRRJ, em 2010. É vinculado e financiado pela Pró-Reitoria de Extensão (Proext).
O programa dispõe de cinco modalidades fixas de aulas de dança e outras temporárias que variam a cada semestre. No período atual, a Cia da Dança oferece oito modalidades diferentes: hip-hop, danças sociais, jazz, ballet, samba, forró, stiletto e samba no pé. Para ministrar todos esses estilos, o programa conta com um total de 19 alunos bolsistas, que, juntos, formam o Corpo Técnico Coreográfico (CTC) do projeto. As aulas acontecem no “Forninho” e na sala G1 do Ginásio, de segunda à quinta-feira. Todos os alunos da UFRRJ e jovens da região podem se inscrever. Confira o quadro de horários das atividades.
A proposta de ter um corpo dançante no campus de Seropédica surgiu da professora Valéria Nascimento Lebeis Pires (DEF), que foi aluna da UFRRJ em 1988. “A Companhia da Dança é um sonho que eu levei daqui quando fui aluna. Eu era bailarina do grupo de dança da universidade. Quando eu voltei, como professora, o grupo não existia e então a gente criou esse projeto“, explicou Valéria. A prática da dança faz com que os estudantes da Universidade Federal Rural não se somem as estatísticas que crescem e assustam no país. De acordo com uma pesquisa divulgada pela Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes), em 2016, 30% dos alunos de graduação no Brasil procuram atendimento psicológico e mais de 10% fazem uso de algum medicamento controlado.
Sobre essa temática, Valéria ressalta que a dança exerce um papel importante para o bem-estar do aluno. “A gente acredita no poder da dança. Nós temos pesquisas para identificar as questões relacionadas à saúde do universitário e uma delas é essa preocupação de oferecer uma prática, uma atividade física para minimizar esses riscos relacionados ao estresse da vida do estudante“, ressaltou a professora.
A aluna Vanessa Cruz, do sétimo período do curso de Educação Física e monitora da disciplina de Dança, acredita que a prática de atividade física alivia na rotina cansativa e estressante a que os universitários são submetidos. “A dança, quando a gente se doa de verdade, nos liberta um pouco dos problemas . Naquele momento em que estamos dançando, colocamos ali as nossas tristezas e nossas preocupações de lado e simplesmente desfrutamos de um momento que também é muito prazeroso“, disse a dançarina.
Quando foi criada, a Companhia da Dança era apenas mais um projeto de extensão que procurava atender a demanda de um corpo dançante na universidade. Com o passar do tempo e a consolidação do grupo, através, sobretudo, de muitos esforços da professora Valéria e de alguns alunos, a dança passou a ter um significado muito maior na vida dos estudantes. Marcus Vinicius, mestrando em Psicologia, simboliza todo sentimento existente entre os alunos que participam do projeto e a dança.
Marcus entrou na UFRRJ em 2011, como aluno de Educação Física. Sua paixão pela dança começou aos 15 anos, quando ainda cursava o ensino médio. A chegada do jovem à Universidade Rural coincidiu com a fase inicial do projeto, momento marcado por muitas dificuldades estruturais para o programa. O “MV”, como é conhecido pelos amigos, integrou o movimento de dança e foi mais um a lutar pelo desenvolvimento do corpo coreográfico. Hoje o grupo está fortalecido e estruturado, mas o dançarino não esquece dos momentos de dificuldade. “Nós sofremos um pouco nesse tempo por conta da estrutura. Tivemos o Forninho fechado por um bom tempo, sem luz. Inúmeras vezes tivemos que tirar dinheiro do nosso bolso para conseguir comprar algum equipamento, como caixas de som e figurinos”, lembrou o jovem.
Formado em Dança de Rua, em 2017, Marcus decidiu fazer mestrado em Psicologia, também na Rural. Sua área de pesquisa não poderia ser outra senão correlacionada ao que ama e, por isso, escolheu estudar “A influência da música”. Apesar da troca de curso, o aluno manteve suas raízes fincadas no projeto que lhe proporcionou tantas alegrias. “O que mais me motivou a continuar ligado ao grupo foi o amor que eu tenho. Seria impossível para mim estar na Rural e não participar da Companhia. Eu amo dançar. Por mais que eu não esteja fazendo minha carreira na dança hoje, já que meu foco é a área acadêmica, isso significa que eu posso não viver de dança, mas eu vou viver dançando“, declarou Marcus.
Marcus Vinicius exibindo os troféus conquistados no torneio Vidança. (Foto: acervo pessoal)
Atualmente, o “MV” é o responsável pelo Corpo Técnico Coreográfico e está presente em quase todas as modalidades de dança do projeto. Com a ajuda dele, o Grupo de Dança da Rural conquistou diversos campeonatos fora da cidade, como o primeiro lugar na competição Dança Paraty em duas modalidades: estilo livre e hip-hop amador e o prêmio no torneio Vidança, com o Grupo Folclore. A conquista de prêmios deu notoriedade ao grupo de dança da Universidade Rural, resultando em inúmeros convites para apresentações e palestras em outras academias de dança. Veja abaixo a apresentação de Marcus Vinicius, Matheus Joaquim e Raíza Souza na escola de dança Marcelo Estrella. A exibição dos alunos que pertencem ao corpo coreográfico da UFRRJ aconteceu após workshop ministrado por MV.
Alunos que participam do projeto Cia da Dança marcaram a abertura da XV edição da Semana Nacional de Ciência e Tecnologia da UFRRJ. O evento foi realizado no dia 15/10, no auditório Gustavo Dutra (Gustavão). Ao todo foram três apresentações feitas pelos estudantes: Maracatu, Dança Contemporânea e o Duo-Sozinho.
Com o tema “Ciência para redução das desigualdades”, a proposta foi que a exibição de danças pouco populares e vistas com certo preconceito pela sociedade fossem a primeira grande atração da Semana de Ciência e Tecnologia.
Márcio Borges e Jéssica Oliveira exibem o Duo-Coreografia Sozinho, de Caetano Veloso, na abertura da XV Semana de Tecnologia e Ciência (Foto:Isabela Alencar).
O destaque da abertura do evento ficou por conta do Duo-Sozinho, realizado por Jéssica Oliveira e o cadeirante Márcio Borges. Aluno de Licenciatura em Educação Física, Márcio é mais um membro da Cia da Dança. Para ele, é preciso externar para todo o público da Rural, seja o corpo docente ou discente, que a universidade é um lugar para todos. “A gente está muito deficitário no termo de acessibilidade e tendo uma abertura com deficiente físico eu acho que vai dar essa visibilidade necessária”, afirmou.
Ainda durante a Semana de Tecnologia e Ciência, o grupo dançante da universidade promoveu um workshop sobre Composição Coreográfica e Dança Experimental. O encontro contou com intervenções artísticas no campo como apresentação dos resultados. A atividade foi comandada pela bailarina e coreógrafa, Sabrina Vaz. A aluna Nayara Martins, do oitavo período de Arquitetura e monitora da modalidade de dança Stiletto, participou do evento e destacou o que aprendeu em termos de musicalidade. “A gente pode dançar a partir de qualquer som. É uma coisa que eu já tinha parado para pensar, mas ela (professora Sabrina), levou para um nível totalmente diferente, o que foi bastante interessante. E outra coisa legal também foi a percepção do espaço, através das dinâmicas que ela estava fazendo. Percepção de quem está ao meu redor e também conhecimento corporal”, contou a estudante.
A professora Sabrina Vaz dança a partir de estímulos de sons provocados pelos alunos durante o workshop sobre Composição Coreográfica e Dança Experimental